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A ficção nacional e as ciências sociais

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.06.09

Mais duas investidas, grandes mentiras, mistificações, da ficção nacional, desta vez servidas pelos "cientistas sociais":

 

- primeiro, aquela da crise estar quase a passar (quase a passar para quem?) e aquela do investimento público gerar emprego: gostava de saber se esses iluminados  (1) já deram emprego na vida seja a quem for, qual deles já se viu grego para pagar ordenados a colaboradores ou ter de escolher entre pagar os ordenados ou pagar os impostos ao estado. Gostava de saber se a lógica não seria esta: o estado começar por pagar o que deve às empresas em vez de lhes propor irem endividar-se ainda mais à banca, isto é, viabilizar as empresas que mais empregam no país; 

 

- segundo, aquela dos portugueses serem pobres mas felizes  de um tal estudo (2) sobre "as necessidades dos portugueses"! Definam felicidade, se faz favor! É que desconfio que o que mediram foram outras variáveis: capacidade de adaptação, sobrevivência, conformismo, resignação... Como é que alguém que passa fome ou que tem de escolher entre comer ou ir à farmácia ou pedir ajuda à família ou recorrer ao apoio social, sem saber o dia de amanhã, pode ser considerado uma pessoa feliz? Só no tempo de Salazar: pobrezinhos mas honrados...

 

Estas conclusões assim apresentadas, desta forma leviana e abusiva, além de "falsidade científica", mistificação, revela uma atitude fria, calculista e perversa. Revela uma total inversão de valores sociais, de respeito pelo próximo em situação precária. Mas esta é a linguagem do poder e as ciências sociais servem para o justificar e legitimar.

É isto que eu mais abomino no paternalismo actual, tanto do poder político, como do "poder científico" que o serve.

 

Qual é a validação científica de ambas as conclusões e de ambas as situações aqui referidas?

Fico à espera dessa validação.

Até lá, leio e reflicto baseada nestes posts:

- do Jorge Assunção, no Delito de Opinião e no Despertar da Mente: Mais pobres e menos felizes e Desconfiança.

- do João Carvalho, no Delito de Opinião: Felizes uma ova.

- de Carlos Pires no Caderno de Sociologia: A alegria da pobreza e Basta pouco, poucochinho para alegrar um português!

 

 

(1) manifesto de 51 economistas: professores universitários de Economia e afins, a maioria do ISEG e do ISCTE;

 

(2) Estudo Necessidades em Portugal - Tradição e Tendências Emergentes, de sociólogos do Centro de Estudos Territoriais do ISCTE.

 

 

Algumas horas depois: A inspiração para este post foi um mero acaso: preparava-me para almoçar e não resisti a espreitar a Sic Notícias. E o que vejo eu? Este famigerado estudo do pobrezinhos mas felizes, relatado pelos jornalistas de serviço como se fosse lei - ah, as ciências sociais, e a conveniência dos seus resultados... mesmo a calhar, agora que o cidadão comum está esmifrado, injustiçado, maltratado e... não contentes com isso, ainda justificam e legitimam essa situação com... a atenuante... a felicidade...

 

Que importa tudo isso... se o cidadão português é feliz?

Que importa que passe fome... se é feliz?

Que importa que não possa pagar os medicamentos... se é feliz?

Que importa que esteja dependente da caridade pública... se é feliz?

Que importa que tenha perdido o posto de trabalho... se é feliz?

Que importa que lhe tenham fechado a chafarica... se é feliz?

Que importa que a sua empresa tenha ido à falência... se é feliz?

Que importa que não veja futuro à sua frente... se é feliz? 

 

É esta a perversidade do raciocínio destes cientistas sociais.E, como qualquer pessoa com alguma capacidade de reflexão vê, muito conveniente ao poder político. Ou estamos a brincar? Estamos a falar de pessoas!

 

E o jornalismo caseiro apenas valida e legitima estas estranhas conclusões que, a meu ver, são levianas e abusivas.

 

Agora, o que mais estranheza me provoca, é a incapacidade destes cientistas sociais se questionarem, isto partindo do princípio que acreditavam estar a medir a variável felicidade, sobre este resultado absolutamente paradoxal: será que o que medimos aqui não foi a felicidade? Será que esta variável é impossível de ser isolada deste modo, sem neutralizar factores culturais? Diferenças, por exemplo, no que significa para populações rurais e urbanas, classes sociais, idade, sexo? Será que podemos concluir assim, sem mais nem menos, generalizando à população portuguesa, que são pobres e felizes?, ou melhor, pobres mas felizes?

 

A ficção nacional tem muitos recursos e este é um deles, até prova em contrário. Ou vão tentar convencer-me que os nossos cientistas sociais não produzem estudos de qualidade? No way! Só que esses estudos não são os publicitados.

E assim se vai formatando e programando a opinião pública, a tal domesticação sistemática, desta vez com a ajuda inestimável das ciências sociais. (Ao menos os americanos são pros nestas andanças. Quase nos levam a creditar que há vida em Marte...)

 

Entretanto, espero pela validação científica deste estudo, claro.

 

 

publicado às 13:26

Os States pegaram na palavra, ou antes, os publicitários da política, e apresentaram-na assim, fresquinha, quase poética, a lembrar vagamente os anos 60 e o caminho rebelde dos liberais em questões como o Vietname, o racismo, o conservadorismo... Quase se podia sentir esse paralelo Obama-Martin Luther King, Kennedy, pacifistas, etc. 

 

Reciclei quase todos os posts em que revelei preferência pelo perfil do McCain em relação ao perfil de Obama. Só restou um, julgo eu... (Afinal restaram dois). Embora não inteiramente convencida, dei comigo a comover-me com a tomada de posse, naquele lugar mágico, cheio de significado histórico. Quando a Aretha Franklin cantou, Céus!, a Aretha Franklin... Confesso, aquele momento ficou-me gravado na memória.

 

E depois peguei no discurso de um Obama já Presidente, e soou-me convicto, inspirado até. 

 

Bem, hoje não consigo sequer ouvir a personagem. E não me perguntem porquê. Tem a ver com a sensação de ter sido apenas discursos inspirados, nada mais. Tem a ver com a sensação de ser um cartaz daqueles publicitários de cartão, que colocam em certas livrarias e cinemas e que, míope distraída que sou, quase confundi um dia com uma pessoa real!

 

É esta a maior falha actual na política! Catapultam-se personagens que, de outra forma, nunca passariam do hall de entrada de uma qualquer organização de gestão dos destinos colectivos. É uma máquina poderosa, mas é assim também que se promovem projectos duvidosos, negócios pouco limpos, operações pouco claras, decisões polémicas. Fica tudo empacotado e preparado para consumir por populações mal informadas (ou desinformadas e até programadas pavlovianamente).

 

Os States exportaram este know how que, também aqui, neste West Coast of Europe, do Minho ao Allgarve, os publicitários importaram, assimilaram e aplicaram!

Como construir uma personagem, já vimos como o conseguiram: com o apoio acrítico e subserviente do jornalismo caseiro e do comentário doméstico.

Como fazer passar projectos, grandes negócios, opções políticas, decisões estratégicas, sem informação clara aos cidadãos, também já vimos como o conseguiram: com o mesmo apoio voluntarista do jornalismo caseiro e comentário doméstico.

 

Agora, que pressentem a mudança no ar, o discurso mudou ligeiramente: já dão para os dois lados, como pêndulos a marcar o compasso num piano velho e desafinado. Não dá para perceber.

Qual será a sensação de não se ter valores nem convicções, a não ser o seu próprio interesse pessoal? É esta a mediocridade que supostamente representa o jornalismo caseiro e o comentário doméstico. Embora muitos deles estejam apenas condicionados pelo receio de perder o emprego (não lhe chamo trabalho, porque não considero digno desse nome bajular para subir na cadeia de alimentação da máquina publicitária).

 

Pior, muito pior, é o comportamento de quem tem o poder, porque lhe foi entregue temporariamente, mas que se comporta como se lhe tivesse sido conferido um estatuto especial por direito quase divino.

Lembram-se dos discursos intragáveis de auto-elogio?, ... num deles tinham quase o poder da ubiquidade?, ... não havia nada de negativo a dizer porque tudo corria bem no melhor dos mundos?, ... a crise não passava por aqui? ... os outros países podiam cair em recessão mas nós não? ... 

E o melhor de todos: não havia qualquer alternativa ao seu iluminado reinado?

Mais ou menos como Chávez. O nível do raciocínio é o mesmo: que chatice ter de ir a votos! Sujeitarmo-nos à decisão do cidadão comum, ignorante e burro! Que alimentámos com a palha que nos deu tanto trabalhinho a preparar, para nem precisarem de mastigar, não se fossem engasgar, coitadinhos!

 

Pois bem, actualmente a confiança é a palavra-chave para o nosso futuro político e viabilidade como país! Não há volta a dar-lhe! Está aqui, e equivale a restaurar uma relação perdida com o cidadão comum, o que aguenta a barcaça à tona de água.

É difícil restabelecer uma relação de confiança. Muito mais difícil do que perdê-la ou destruí-la. Equivale a uma atitude de verdade e transparência.

E de uma política consistente, passível de ser avaliada e reformulada, de forma responsável e sensata.

É esta a mudança necessária. É este, a meu ver, o verdadeiro significado político da palavra.

 

Confiança nas instituições-chave de uma democracia digna desse nome.

Confiança nos representantes a quem se atribuiu essa responsabilidade temporária de gerir as políticas fundamentais de um colectivo.

E confiança em si próprios, enquanto cidadãos, enquanto gestores, enquanto recursos humanos.

 

publicado às 11:29

"Jogos florais" em vez de assuntos essenciais

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.06.09

Há palavras que caem, pesadas, e ficam ali como grandes pedregulhos à nossa frente. É assim com Medina Carreira. De novo com Mário Crespo, na Sic Notícias.

A que mais me impressionou é até muito levezinha, mas aplicada à política e à economia nacionais, como são tratadas na televisão, é um enorme pedregulho a cair nas nossas cabeças: jogos florais. 

Isto é: andam a discutir jogos florais em vez de tratar dos assuntos fundamentais. E a frase: quando quiserem debater a sério os assuntos fundamentais, convidem-me que eu venho.

Bem, no final lá aplicou mais uma palavra que soou como o remate ideal: isto já parece o Júlio de Matos.

 

Vamos então analisar os pedregulhos:

O jornalismo caseiro e o comentário doméstico entretêm os telespectadores com as telenovelas inócuas, ocupam esse tempo-espaço privilegiado da informação e comunicação, com assuntos supérfluos.

Não há verdadeiros debates dignos desse nome, sobre a situação precária do país, a despesa pública insustentável e o endividamento incomportável.

 

Mas essas é que são as verdadeiras notícias, os assuntos essenciais: devíamos estar informados sobre a nossa situação real.

Numa pincelada Medina Carreira deu-nos uma imagem clara, claríssima, sobretudo quando se referiu aos juros do crédito no exterior. E nem as receitas do turismo já dão para equilibrar os pratos da balança.

 

Ora, é neste contexto que o governo insiste no investimento público de grandes obras.

E é neste contexto que vão surgir 51 economistas num manifesto a favor do investimento público das grandes obras. Estou com alguma curiosidade. 51 é um número impressionante.

 

Pois bem, não confio à partida em especialistas que não tenham uma qualquer experiência empresarial ou outras responsabilidades concretas de gestão financeira. Os teóricos não me convencem.

E nem o nobel da economia me convence do contrário: a continuar por este caminho um dia destes deixaremos de ter crédito no exterior. E então como é? 

 

 

Um dia depois: Eu não disse que seriam teóricos os 51 economistas do manifesto? Quase todos professores universitários. Onde é que já meteram as mãos na massa, digamos assim, para criar riqueza? O que sabem de experiência própria de criar uma empresa e de a manter a funcionar com o estado a esmifrá-lo?

 

 

publicado às 23:24

A ficção nacional e a telenovela governamental

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.06.09

Já viram a trabalheira que dá reconstituir a ficção nacional e a telenovela governamental?

É que não se pode iniciar pelo início, é pelo meio que podemos pegar na história, e às vezes por mero acaso. Quantas histórias estarão por contar, porque foram camufladas?

 

Esta mais recente, por exemplo, só a apanhámos a meio, e agora temos de caminhar ao contrário para a reconstituir. Passo a passo. Isto é quase como o trabalho apurado do Poirot. 

E mesmo que digam que os bloggers não contam factos, porque os desconhecem, que só especulam, só posso dizer: e porque será? Não será porque os cidadãos não têm acesso à informação? Os negócios que envolvem o estado não deveriam ser transparentes, e a informação estar acessível? Afinal não é um investimento público?

 

Caminhar ao contrário, passo por passo, e reconstituir a história. Para já, posso perceber que esta telenovela já se iniciou há algum tempo, não surgiu agora de repente.

O primeiro passo, andando para trás, parece-me aquela entrevista de Judite de Sousa ao actual presidente da PT e a apresentação (ou construção) de uma personagem-enquanto-gestor-competente. Claro que estou a especular, mas tudo agora me surge à frente como uma construção.

Esta recente declaração de Silva Pereira, que Henrique Granadeiro (da PT) veio agora informar publicamente que não comunicou nada ao governo sobre o negócio, só veio confirmar as nossas deduções. Bingo!

E se isto fosse assim tão inocente e transparente, o próprio President, (que sempre cooperou estrategicamente até agora), viria alertar os administradores?

 

A ficção nacional vai continuar, porque quem a construiu nada é sem ela. Quando for desmontada, porque nenhuma ficção se mantém por muito tempo sem revelar partes da realidade que quer esconder, vai ser com bastante impacto, como nas telenovelas.

 

O que mais me preocupa é o seguinte: se as pessoas não gostassem tanto de telenovelas, esta ficção nacional já teria sido desmontada. Mas tudo isto é preparado por pros, não são amadores. Estes pros conhecem bem esta tendência generalizada.

 

Há que estar atento às cenas dos próximos capítulos que nos ajudarão a reconstituir o resto da telenovela. O enredo não é grande coisa, mas já viram o que os rosinhas pensam da nossa inteligência? Pensam que somos todos muito burros e ignorantes.

 

Outras telenovelas estão a ser preparadas, ao milímetro, para entreter as alminhas mais distraídas. Isto até às eleições vai aquecer... os ânimos estão ao rubro. Para manter a distância saudável que permite a racionalidade e a sensatez, desligo a televisão. É o melhor. 

 

 

publicado às 16:04

"Em defesa da liberdade" (Rui Carmo, n' O Insurgente, 21/06)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.06.09

Ora cá está mais um post sobre liberdade (sintomático, não?) de Rui Carmo, Em defesa da liberdade, n' O Insurgente, e com um número significativo de comentários, o que também é um sintoma, mas essa análise fica ao critério de cada um.

 

Posts relacionados: Em defesa de quê?... de JTCB e O fim da separação de poderes de João Luís Pinto, igualmente n' O Insugente.

 

A linguagem do poder é tão previsível! Embora prefira agir à socapa, de forma camuflada, isso não significa que o objectivo seja invariavelmente de uma pobreza de ideias e de valores, de estratégias adequadas. A sua eficácia resumir-se-á, a meu ver, ao controle dos cidadãos. 

Na hora da verdade, em que for avaliada a sua eficácia na segurança de pessoas e bens... a mediocridade das respostas será a mesma de sempre...

Mas os cidadãos já estarão controladinhos. Cá para mim, a Europa vai começar a assemelhar-se culturalmente à RDA antes da queda do muro. Assim como eu sempre a vi, e também é vista pelo Billy Cristal em Um Amor Inevitável. Eu conto por alto: Billy conta à Meg Ryan um pesadelo: sonhara que a mãe era um júri da RDA, daqueles que davam notas baixíssimas nos campeonatos de patinagem artística, lembram-se? Mas para saberem em que prestação o estava a avaliar, terão de rever o filme!

(Espero não estar a confundir cenas de filmes, porque assim de repente surgiu-me o Woody Allen e uma line semelhante... Terei de rever o filme também).

 

 

publicado às 16:44

Como iremos passar o testemunho às novas gerações?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.06.09

E como o país se transformou mesmo num manicómio, aqui vai um post magnífico de João Carvalho, Mistério resolvido, no Delito de Opinião.

 

Parece que o problema da nossa sobrevivência como país está mesmo nos transportes!

E que ainda por cima assegura empregos!

 

Enquanto os gestores do poder económico e político utilizarem uma linguagem desactualizada, completamente inadequada aos desafios actuais, não vamos a lado nenhum.

Mesmo nos debates televisivos, a pobreza da sua argumentação é mais do que evidente e causa-me verdadeiros calafrios.

 

Como iremos passar o testemunho às novas gerações? Tal como nas estafetas, vamos já com um atraso considerável, aos tropeções, tendo falhado os treinos necessários, uma tristeza... delapidaram-se recursos, financeiros e humanos, oportunidades históricas perdidas, e ainda se dão ao luxo de nos vir tentar vender as suas teorias gastas e medíocres?

 

Por isso gostei tanto do post do João Carvalho!

 

 

publicado às 23:17

"Não se pode exigir à supervisão..." supervisionar?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.06.09

Este é o país que é um manicómio. Pelo menos, é o que me parece ultimamente.

"Não se pode exigir à supervisão..." o quê? Supervisionar?

Supervisionar = agradecem-se definições. Supervisionar, o que é afinal? Ver qualquer coisa, não é? Ter instrumentos para ver e para avaliar qualquer coisa, não é? 

São pagos principescamente para ver e avaliar qualquer coisa, não é?

 

Então, "não se pode exigir à supervisão"... o quê? Efectuar o trabalho pago pelos contribuintes?

 

 

 

 

publicado às 21:04

A liberdade enquanto valor fundamental

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.06.09

Tenho esta mania de valorizar certos sinais, como este de se ver referido o valor liberdade, em diversos locais em tempo coincidente.

A meu ver, este sinal mais parece um sintoma. Eu diria mesmo, sem estar a exagerar, que se trata mesmo de um verdadeiro sintoma, isto de se falar em liberdade a torto e a direito. Como se se estivesse a tornar um bem escasso. 

Quando um determinado valor permanece nas nossas vidas, digamos como quase garantido, nem o nomeamos nem o referimos. Mas ultimamente dou com a palavra liberdade aqui e ali, como se de repente houvesse necessidade de a defender, ou mesmo de a reaver. 

 

Gostava, pois, de desenvolver o tema: o valor liberdade enquanto valor fundamental, mas aguardo por dias mais inspirados.

Podia pegar no tema, por exemplo, pela estranheza que me causou o confundir-se liberdade com a vontade de verbalizar tudo e mais alguma coisa, mesmo agressiva ou ofensiva, porque sim.

Ou confundir-se liberdade com a possibilidade de refilar, protestar, gritar, manifestar-se, etc. etc.

Sim, espero por dias mais inspirados, porque a liberdade implica muito mais do que verbalizar, gritar, gesticular, manifestar.

Implica uma ideia muito clara do que se quer para si e para a comunidade.

Implica a possibilidade de participar, decidir, escolher.

E uma nova forma de construir alternativas funcionais, adaptadas aos desafios que temos pela frente.

Implica a responsabilidade individual e colectiva.

Implica um respeito por si mesmo e pelos outros seus iguais.

E implica igualmente a escolha de quem possa melhor representar o grupo, a comunidade. E decidir quais as prioridades.

 

Sim, um dia destes volto ao tema e ao sintoma muito actual de ter surgido a necessidade de referir a liberdade em diversos locais.

 

 

Alguns dias depois: Mais um post sobre a liberdade.

 

 

publicado às 12:35

De novo Natércia Freire, a sua voz poética, que me acompanha desde a infância. Este poema Imaculado País, lembra um espaço-tempo solar, uma claridade quase perdida e que teremos de reinventar. Mas também lembra fantasmas que vagueiam no mundo da ilusão.

 

 

                                            Imaculado País

 

Imaculado, esse país que existe

onde os olhos procuram a saudade

e os cabelos da Lua se desatam.

 

Onde os salgueiros num amor de frio

se curvam a gemer para o seu rio.

Branco. Suave. Com vagares de sonho,

brincam meus filhos entre os bancos verdes

e os canteiros de flores bem repousados.

As janelas das casas estão fechadas

e cantam em surdina nos alpendres.

(Descem ao mundo as Sombras Bem-Amadas.)

O viajante pousa o seu cansaço e sonha docemente.

 

Nossas Irmãs de infância, num sorriso,

com dedos de alma e paz traçam consolos.

(Fomos de bibe ao Grande Paraíso

mas acordámos logo.)

 

Museus e livros, em poeira casta

esperam a voz das interrogações.

(Os guardas desconhecem os fantasmas.

Nossos corpos se envolvem de algodões.)

 

E em vozes longas, através as noites,

brilhamos luzes de onde para onde.

 

            Imaculado, esse país que existe,

            envergonhado e tímido se esconde.

 

 

 

Descobri este poema na Obra Poética - vol. I, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. E no vol. II, este Que Sei Não Entendo.

 

                                               

                                        Que Sei Não Entendo

 

Noite velha,

Uma voz que não diz som.

Madrugada,

Uma voz que não diz paz.

Uma luz, que não diz

Nem cor nem som.

Um chegar.

Que em partida é já fugaz.

 

Um deserto,

           A cidade abandonada.

A prisão,

           Que ninguém vem visitar.

A mulher,

           invisível e parada,

Na morada

           De uma Pátria a flutuar.

 

Um destino

Infinito sem manhã.

Um falar

Que ninguém ouve jamais.

 

Uma carta,

Outra carta, sempre vãs,

Sempre iguais, sempre iguais

E sempre iguais.

 

Morro todas

As mortes inocentes.

Morro todas

As mortes à traição.

 

O que sei, não entendo.

A minha liberdade

Não a vendo

Por qualquer ilusão.

 

 

Este é francamente cinematográfico e aquelas expressões tão poéticas e sugestivas, como Noite velha... Um chegar... A cidade abandonada... A mulher, invisível e parada... Uma Pátria a flutuar...

 

 

publicado às 02:00


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